Lei Seca

Um espaço para discutir as grandes questões. Editor-chefe: Luiz Augusto

Nome:

Advogado, vive em São Paulo

quinta-feira, agosto 30, 2007

Há metalinguística o bastante para não pensar em nada...

Parafraseio Fernando Pessoa para agradecer a todos os alunos que no momento estão fazendo um trabalho escolar sobre a Lei Seca americana, ou sobre a proibição do álcool como forma de reduzir a violência e em muito aumentaram a audiência deste blog nesta semana.
Sem ilusões de estar sendo lido pelas massas, continuarei a escrever para quem interessa, os poucos amigos e amigas que visitam este site sem digitar "Lei Seca" no Google.
De volta à programação normal...

terça-feira, agosto 28, 2007

I´ve Brussels

(A viagem segue)
Desembarquei do trem Eurostar em Bruxelas, capital da União Européia e caldeirão de culturas. Cidade que não sabe se é francesa ou holandesa. Assustei à primeira vista. Larguei as malas no hotel, sai andando para o lado errado e me perdi num bairro árabe, morto de fome. Não arrisquei nos kebabs. Após tomar o rumo da roça e me nutrir, visitei um museu sobre histórias em quadrinhos (armadilha para turista) e passei a tirar fotos da cidade.
Esse é o Hôtel de Ville, prefeitura, lindo prédio adornado com dezenas de estátuas diferentes:

Já recuperado do susto com os árabes, andei com mais calma. Vi o Manequinho e tomei uma cerveja. Certa hora localizei esta bela praça:

Outra foto, outro lugar:

No dia seguinte eu fui para Bruges (conto em outro post). Mas ainda fiquei outro dia em Bruxelas, antes de ir para Amsterdam. No meu segundo dia em Bruxelas eu fui para outro canto da cidade, para os arredores do Parc du Cinquantenaire:

Lá vi um dos museus mais interessantes da viagem, o Museu do Exército. Algumas das peças mais bacanas eram um Mig-23, jato soviético, e um grande barco de guerra:



Terminei a manhã espionando o Parlamento Europeu e almoçando na sua vizinhança. Depois eu pegaria o trem para Amsterdam.
(Para não perdemos a ordem, num próximo post falarei de Bruges, ainda na Bélgica)

quinta-feira, agosto 23, 2007

O caso dos exploradores de marquise

“Todo tiempo pasado fue mejor”, provérbio argentino

Acoste-se ao lado do fogo que crepita, viajante, e sirva-se de um naco de carne quente. Contarei uma história que se passou antes das águas do Atlântico cobrirem o que chamavam de Nova York, numa cidade também já engolida pelos mares, Santos.
É uma noite na vida de um menino cabeçudinho, magricelo e que gostava de correr em espaços abertos, chamado Guto...
Tá bom, parei, vou contar de maneira informal.
É sobre minha infância, em Santos. Morava num prédio no bairro do Boqueirão, e meus amigos eram Fábio, Eduardo e Paulo. Creio que foi perto do meu aniversário ou do dia das Crianças, pois eu tinha ganho um boneco dos Comandos em Ação, e que vinha com uma pintura de guerra, em cores de camuflagem do exército. Chocante, como diziam.
Aquela tinta nos excitou como índios e fez renascer o nosso instinto explorador. Já havíamos exaurido o bairro e o Canal 4, que era nosso limite natural (o Canal 1, a meros três quilômetros, era considerado um fim de mundo). Já havíamos pulado os muros do colégio para apanhar as bolas de futebol de volta e entrado num casarão velho dos arredores. Não faltava nada.
Exceto a marquise do prédio.
Vizinha ao primeiro andar, ela era a última fronteira, onde nenhum morador do Gold Star, exceto o zelador, já havia ido antes. Guardada por afiados cacos de vidro colorido, parecia uma fortaleza inexpugnável. Tínhamos que conquistá-la.
Mas precisávamos criar coragem antes. Um dos amigos propôs, numa noite, que cumpríssemos uma tarefa mais simples, antes da marquise. Havia uma empresa de transporte, Benfica, que costumava deixar uns cinco ônibus estacionados na nossa rua, em frente ao colégio. Os motoristas dormiam no bagageiro. Resolvemos que iríamos nos arrastar por baixo dos ônibus, até o outro lado, depois do último.
Corri ao meu quarto e peguei a pintura de guerra. Com o rosto devidamente camuflado, reunimos a tropa na frente do primeiro ônibus.
Deitamos no chão e começamos a nos arrastar. O chão era de paralelepípedos, e oferecia resistência. A rua era suja. Mas não era difícil imitar cobras, ríamos. Um, dois, cinco ônibus, rastejamos muito. Após a escuridão dos subterrâneos, estávamos de volta à luz. Saímos do chão como quem nasce. Todos estavam negros de graxa e poeira. Vitória.
Na euforia, alguém sugere:
- Vamos subir na marquise. Hoje!
Nada podia nos deter, vamos lá. Subimos até a garagem do prédio e encostamos a frágil escada de madeira suja de tinta branca na beirada da marquise. Largamos os chinelos no chão. Um a um todos escalaram. Com um lance de pé evitamos os cacos de vidro. Estávamos no espaço.
Avistamos as luzes da cidade. As estrelas. Era um novo ângulo do mundo. Janelas fechadas e abertas. Vizinhos dormiam, alguns viam TV. Pena, não havia nenhuma moça trocando de roupa. Andamos de um lado a outro. Ninguém notou. Corremos. Rimos. Tiramos sarro do zelador. Cantamos músicas do Trio Esperança (de um disco já velho naquela época que ouvíamos...).
Devíamos descer antes que o guarda-noturno acordasse. Fui primeiro. Dei um golpe de pé esquerdo e ultrapassei a amurada e os cacos, alcançando a escada. Firme no apoio, puxei o outro pé, mas senti ele batendo em algo. Desci os degraus preocupado.
No chão, olhei devagar para baixo, receoso do que encontraria. Havia um corte no pé direito, um pouco abaixo do tornozelo, e sangue jorrava. Sentei e tentei apertar a ferida, só empapando minha mão de vermelho.
Os outros desceram rápido. Fábio já correu para chamar minha mãe. Gritei para que ele não fizesse isso. Tinha medo da bronca. Fiquei derrotado no chão, sem me mexer.
Ela chegou, já trazendo uma toalha, enrolando tudo sem olhar, e o diagnóstico:
- Ai, Guto, vai ter que dar ponto.
Fomos ao pronto-socorro eu, ela, e meu pai dirigindo. Eu ainda tinha a cara cheia de tinta de guerra, mas não ganharia uma Estrela Púrpura, uma Cruz de Ferro ou outra medalha por ter me ferido. Talvez um castigo. Aprendi o que são pontos, sendo costurado.
A missão da marquise acabou em fracasso, com feridos e um banho de sangue.
Foi assim que ganhei a minha primeira cicatriz, a pioneira de uma série de dentes quebrados, marcas no corpo e corações partidos.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Quem avisa amigo é...

Diálogo de um conspirador e seu pai:
- Mas meu filho, você fica aí participando desses "Cansei", "Grande Vaia"! Eles vão te perseguir. Saiu sua foto no jornal. A hora que isso aqui virar uma ditadura você está danado...
- Não se preocupe, meu pai. Se um dia isso acontecer eu me exilo no exterior. Aí um dia eu volto, falo que estava combatendo o estado autoritário e peço uma pensão vitalícia pelo meu esforço, que nem o Cony. Ou viro ministro, que nem a Dilma. Ou lobista, como o Dirceu. Talvez deputado, no exemplo do Genoino.
Silêncio. O velho matuta, e conclui:
- Posso ir na próxima reunião do Cansei?

terça-feira, agosto 21, 2007

Um vídeo bizarro da Presidência - Quase-furo do Lei Seca

Fui atrás desse vídeo por causa de uma dica quente, achando que teria um furo sobre o Lula, mas não havia nada demais. Demora-se na banda larga uma meia hora para baixar.
É um evento da Advocacia-Geral da União, com as Ilmas. presenças do presidente, ministros dos STF, o Sarney, demais autoridades presentes, etc.
Filma-se por um tempão cadeiras vazias, nada acontece, testa-se a filmagem. Aí chamam um grupo de velhinhos, que muito desafinadamente torturam a audiência com uma música de Fábio Jr.. Hilário. Deve ser lá pelos 20min.
Lá pelas 2h46 min (adiantem, não tentem assistir tudo) o Ouvidor-Geral da AGU, que está tomando posse, agradece à sua família e a seu companheiro de muito tempo pelo apoio (hã? - estaria ele saindo do armário? - ...e não que haja algum problema com isso). Tenho certeza que ele é petista (tem a língua presa e come o "s" na(s) palavra(s).
Bom, o quase-furo é que tinham me dito que logo após o Ouvidor-Geral agradecer seu companheiro o vídeo focalizaria o Lula e o Tarso Genro surpresos, cochichando sobre a opção sexual do moço. Mentira, isso não aparece no vídeo. Não é dessa vez que derrubarei a República. Continuarei indo no Cansei e no Grande Vaia.
O link, aqui: http://www.veredasonline.com/evento-on/agu1/ - Acessem embaixo: Cerimônia de abertura.

segunda-feira, agosto 20, 2007

O Homem Que Matou o Facínora

Vou falar um pouco de um filme já antigo, de 1962. O Homem Que Matou o Facínora (no original The Man Who Shot Liberty Valance), dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne, James Stewart, Lee Marvin e Vera Miles. Creio que ele permite algumas discussões interessantes sobre direito e política, e algumas conclusões com certa conexão.
Nesse faroeste, um respeitado senador, Ranse Stoddard, vivido por James Stewart, retorna de trem com sua mulher (Vera Miles) à cidade de Shinbone, no Oeste Selvagem. Ele está a pretexto do funeral de um velho amigo, Tom Doniphon (John Wayne), um desconhecido vaqueiro. Indagado pelo dono do jornal local acerca das razões da distante e cansativa viagem (dois dias de trem, naquela época) apenas para o enterro de um pobre-diabo, o senador passa a contar sua história.
Muitos anos antes Ranse era apenas um advogado recém-formado vindo da Costa Leste dos EUA, que deixara o conforto da civiização a fim de desbravar a fronteira ainda pouco habitada do Oeste selvagem. Os trens ainda não haviam chegado lá, e ele vem de diligência. Não tem dinheiro, não tem arma, e carrega apenas seus livros de Direito.
Perto de Shinbone seu transporte é atacado pelo bando do Liberty Valance do título (Lee Marvin), um bandidão mascarado. Ao tentar defender uma passageira, Ranse toma uma surra de chicote de Liberty, que o deixa quase morto.
Ele é resgatado e fica na pousada onde trabalha Hallie, que será sua futura esposa. Sua chegada causa muita atenção na cidade, lugar sem lei e onde as questões são resolvidas à bala. Ranse é idealista e acredita que pode trazer um pouco de ordem ao lugar. Ele quer que Liberty seja preso por seus crimes. Ele conhece o caubói Tom Doniphon, homem realista e que logo mostra a ele o modo de vida do lugar, e que a felicidade lá é uma arma quente.
Ranse vai aos poucos se integrando à comunidade. Monta sua banca de advocacia, trabalha no jornal local, começa a dar aulas de alfabetização e cidadania. Ele tem sua atenção chamada para a política local. A grande questão é se o território deve se tornar um Estado, o que favoreceria o homem pequeno. O status quo, uma terra sem lei, interessa apenas aos grandes barões do gado.
Mas a missão de Ranse incomoda esses barões, e seu caminho cruza uma vez mais com o de Liberty e seu bando, que são capangas dos grandes fazendeiros. Há um crescendo de conflito, que vai chegando ao seu ápice com a proximidade das eleições para o envio de dois representantes locais à capital Washington. Os escolhidos são Ranse e o dono do jornal Shinbone Star.
O publisher do jornal é cruelmente espancado por Liberty, e sua propriedade é empastelada.
Shinbone é pequena demais para Ranse e Liberty. O advogado bem que tentou divulgar por lá os benefícios da lei e da ordem, mas ele chegou numa encruzilhada em que só as armas resolverão o conflito.
Ele chama Liberty para o duelo final dos dois. No feroz tiroteio Ranse mata Liberty. A cidade está livre de seu carrasco.
A fama de Ranse se espalha por todo o território. Na convenção para a escolha do representante em Washington ele é aclamado pelo povo, mas não sem antes os barões ressaltarem que ele é apenas mais um pistoleiro com sangue nas mãos. Desnorteado, ele sai do salão, disposto a voltar para o Leste. Ele se tornara aquilo que ele sempre combatera. Era um homem de leis, mas seria sempre conhecido como um justiceiro, alguém que resolvia suas questões pela força.
Ele é dissuadido por Tom Doniphon, que lhe revela a verdade. Foi Tom quem na verdade atirou em Liberty, e salvou Ranse mais uma vez, como muitas vezes fizera. Mas a verdade que apareceu é que foi Ranse o atirador. E já que se criou fama, que se deite na cama. Agora Ranse deveria aproveitar a notoriedade súbita para se eleger e criar o Estado, e ter poder para aplicar suas idéias. Um mal menor para um bem maior.
E assim ocorre. Ranse vai à Washington, cria o Estado, governa-o por várias vezes, vira Senador, embaixador em Londres, tem uma carreira de sucesso, pode ser Vice-Presidente, se quiser. É o homem que atirou em Liberty Valance. O verdadeiro herói, Tom, não tem interesse nessas glórias, e morre pobre como sempre viveu.
Ao fim da narração da verdadeira história de Ranse, o dono do jornal rasga suas notas, não publicará o furo que tem nas mãos. É conclusivo: “Quando a lenda torna-se fato, publique-se a lenda”.
Apesar de tudo, por mais vitoriosa que tenha sido sua trajetória, à Ranse nunca agradou esse começo. Pensava em impor-se pela lei, queria a ordem pelos livros de Direito, mas sempre seria conhecido como “O Homem que matou Liberty Valance”. Foi levado pela força das circunstâncias.
Na política por vezes nem tudo é o que parece. Às vezes um grande começo é o que basta. Creio que a primeira pessoa que foi esta espécie de político foi Davi, rei de Israel. Era mero pastor quando se armou e derrotou um verdadeiro gigante, Golias. Foi o que bastou para que fosse ungido rei e patriarca de uma linhagem de soberanos.
Por vezes um agente na esfera política precisa matar um Golias, fazer algo que lhe dará destaque, e que pelo menos no começo será a fonte de seu poder.
A história desse filme é a saga clássica de um Davi, um homem menor que derrota um maior. Mas Ranse, ético, era muito maior que o imoral Liberty. Mas essa grandeza moral e seu conhecimento das leis não seriam o bastante contra a força bruta. Por vezes é preciso saber usar de outras armas. Saber deixar a folha dobrada, enquanto se vai morrer.
Filme belíssimo, digno de estar em companhia de outros grandes faroestes. Incrível como um determinado período da História, de uma parte de um país, o que pareceria limitado, serve de base para um dos maiores gêneros do cinema, e como pano de fundo de grandes histórias (se estou errado assistam Era Uma Vez no Oeste). Algumas das mais importantes metáforas narrativas, como o duelo, o homem sozinho contra todos, o surgimento da ordem em meio ao caos, se encaixam perfeitamente a esse gênero.
E O Homem Que Matou o Facínora tem tudo isso.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Cansei - As imagens

Fui hoje no Cansei, movimento liderado pela OAB-SP e que reuniu 4.000 pessoas na Praça da Sé. Fomos barrados no Catedral, como os pagadores de promessa de Dias Gomes, mas estávamos lá. A praça é do povo.
Legal é que quanto mais se protesta, mais eles passam recibo de que não estão gostando (vide o papelzinho ridículo a que se prestaram o governador do Rio e o presidente diante de uns garotos com narizes de palhaço contrabandeados nas partes baixas que ousaram protestar ontem).
Ressalve-se que esse movimento é diverso do A Grande Vaia. Senti que os organizadores do Cansei estão meio verdes, quase pediram desculpas por protestar. Será que tenho que lembrar a todos que isso é uma democracia, e que temos que defender até o fim o nosso direito de crítica e protesto?
Aqui, as imagens:
1-) Manifestantes com cartazes:
2-) Hebe, Osmar Santos e o presidente da OAB-SP, Luiz Flávio D´Urso:

3-) Ivete Sangalo, a musa do movimento:

4-) Essa foto é do UOL, mas como eu apareço, escondido na multidão, considero que meus direitos de imagem pagam os direitos deles de reprodução:

quinta-feira, agosto 16, 2007

A Máquina do Mundo

Um link interessanste http://www.poodwaddle.com/worldclock.swf
Uma contagem em tempo real dos nascimentos, mortes e outros dados estatísticos do planeta.
Os números assombram e deixam qualquer um com uma sensação de insignificância.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Meninos nada sabem de guerra

Em minha infância costumava passar as férias na cidade de meus avós, Cerquilho, no interior de São Paulo. Lugarejo calmo e pacífico. Creio que fui da última geração que ainda podia brincar na rua sem medo de violência ou de pedófilos, e sem estar trancado num condomínio fechado.
Cerquilho era uma espécie de território livre. Ficava solto nas ruas, correndo e andando de bicicleta até os limites em que a cidade se encontrava com a zona rural. Subia nas árvores e invadia as construções. Quase tudo podia acontecer. Até mesmo uma guerra.
Meu companheiro de aventuras era meu primo Everton. Ele tinha um bom coração, mas não era o tipo intelectual. Era forte e parrudo, e andando com ele eu sabia que ninguém iria mexer comigo, eu que era visto como uma espécie de matuto da cidade grande.
Certa feita, numa dessas temporadas lá, Everton cismou com um vizinho seu, um outro menino chamado Robledo. Para meu primo, Robledo era culpado de tudo, apesar de ser apenas um e bem menor que ele. Ele era acusado de jogar terra na casa e furar os pneus do carro de seu pai. De roubar as goiabas do pé e de mover a cerca mais para seu lado. Só não foi acusado de engravidar as mulheres de sua família. Éramos meninos.
Everton começou sua batalha contra Robledo. Como meu aliado e parente, não podia deixar de ajudá-lo. Atacávamos ele com água e terra. Ele revidava. Colocávamos bombas de “mil” (cruzados, a moeda da época) na frente de sua casa, puro terrorismo anarquista. Ele colocava bombas de “cinco mil”, as mães de todas as bombas, na casa de Everton e na da minha avó. A rua se sacudiu com o confronto. Os cachorros latiam e uivavam. Os cavalos relincharam. A orelha de Everton ardeu com os puxões de sua mãe. Nossos gritos ecoavam de um lado a outro:
- Morfético!
- Lazarentos!
- Tísico!
Apesar de nossos esforços, cada dia Robledo ressurgia mais sujo e agressivo. Everton, sem os dotes de Cícero, proferia furiosas catilinárias contra seu nêmesis. “Até quando vais abusar da nossa paciência, ó Robledo?” Meu primo partiu para as vias de fato, desferindo uns bons cascudos no seu inimigo. Mas isso só o enfureceu ainda mais, que continuou a nos fustigar com suas bombas e bexigas de água, chamadas de “bombuchas”.
As batalhas prosseguiram por um tempo, atingindo um impasse. Até que um dia meu primo, num rompante de aparente lucidez, me disse:
- Vamos fazer a paz com ele. Passe essa tarde no quintal que vamos nos preparar.
Após o almoço voltei à casa de Everton. Ele estava no quintal, e me levou até o galinheiro. No pequeno galpão ele me mostrou os seus termos de paz, as suas condições. Inúmeras “bombuchas” prontas e amarradas, cheias até a borda, úmidas. Algumas vazavam, escorrendo água no chão. Ele me anunciou seu plano:
- Vá até a casa daquele caipora e fale que queremos fazer a paz. Que amanhã vamos visitar ele e ficar amigos. Na hora que estivermos lá dentro ele vai receber toda essa água na cabeça.
Dito e feito. Eu podia chegar perto da casa de Robledo sem receber um petardo, ao contrário de meu primo. Toquei a campainha, ele atendeu meio desconfiado, e eu me fiz de arauto da paz. Robledo concordou, amanhã estaríamos lá.
No dia seguinte, no horário combinado, fomos até a fortaleza inimiga. Era uma missão suicida. Mas se fosse vitoriosa, estaríamos livres dele. Levávamos as “bombuchas” nos bolsos.
Ele nos recebeu até aliviado. Creio que ele queria mesmo a paz. Fomos até os fundos, onde uma mesa estava posta com bolachas e limonada. As mulheres de sua casa, mãe e irmã, nos sorriam. Ele sentou e conversamos um pouco.
Confesso que fiquei com pena. A mesa posta, as bolachas, a limonada, o inimigo desarmado e confiante. Haveria tempo para resolver tudo da melhor maneira? Não houve. Um minuto depois Everton se levantou com um grito, arremessando uma “bombucha” bem na face de seu rival:
- Já!
Hesitei um pouco, mas não havia mais o que fazer. Robledo já urrava de raiva, quando eu o acertei na cabeça também. Cada um dos atiradores ainda conseguiu jogar mais uma “bombucha” antes de fugir da casa, com Robledo furioso em nosso encalço. De relance pude notar a mãe de Robledo dando risada. Creio que ela devia estar pensado: “Esses meninos...”
Corremos, deixando a cena do crime para trás. Algumas quadras depois paramos a fim de recuperar o fôlego. Nem sinal de Robledo.
Everton estava eufórico. Havíamos vencido. Ele nunca mais nos incomodou, perdeu face, estava desmoralizado demais perante a rua para revidar. Ficou com fama de bobo, por ter sido alvo de tamanho golpe em sua própria casa.
Ganhamos, sim. Mas creio que perdemos um possível amigo.
Meu primo ainda mora por lá. De Robledo nunca mais ouvi falar, creio que mudou de cidade (não por causa disso, espero...). Eu ganhei e perdi outras batalhas por aí.
E pensar que até aquele momento nunca tínhamos ouvido falar do cavalo de Tróia. Jamais abrimos compêndio algum de Grotius, Clausewitz ou Maquiavel. Não sabíamos quem era Hobbes, que o homem era o lobo do homem, ou tínhamos ouvido as lições do Cardeal Mazarin. Ninguém nos explicou o que era trégua, armistício, termos de rendição. Devíamos ter feito a paz. Mas meninos nada sabem de guerra.

domingo, agosto 12, 2007

Dias de Glória

Nesses tempos de Pan, em que o país fica numa euforia ufanística, lembro de um fato. Nunca fui bom em esportes. Vá lá, não faço feio no vôlei. Mas nunca fui primeiro lugar em coisa alguma. Como Fernando Pessoa, sempre fui farto de semi-deuses, e meus conhecidos eram campeões em tudo. Não tenho em casa medalhas de honra ao mérito, placas, flâmulas ou troféus de vencedor.
A altura nunca me serviu para nada, seja basquete ou mesmo o vôlei, que me agradava mais e era um pretexto para não jogar futebol. Era apenas desengonçado. O Pateta nas Olimpíadas.
Em resumo, e todos entenderão, eu era sempre o último escolhido para o time.
Mas tive meu momento. Aquele que até mesmo Pelé deve ter. A minha hora e vez no esporte. O meu dia de glória.
Havia um professor na escola que gostava de subverter alguns esportes. Um revolucionário das quadras. Misturava corrida com beisebol, peteca com queimada, etc. Um dia ele chamou a classe toda e apresentou uma modalidade nova, uma espécie de futebol com handebol, um vale-tudo em que mãos e pés eram usados para fazer gols.
Não lembro nada do jogo, ou das regras. Só recordo que eu era uma espécie de queridinho do professor, um júnior, um café-com-leite que tinha que ser protegido, de tão ruim e sofrível que era meu jogo. Acho que ele interferia até na escalação dos times, como um típico cartola. Eu estava sempre para ficar por último na seleção, aí ele dizia: “Escolhe o Luiz. Bota o Luiz no time...” (“bote mais um zero”, diz quem aponta a arma ao emissor do cheque...)
O jogo começa, a bola vai e vem. Gols. Uma bagunça total, braços e pernas livres para jogar. Faltam-me os detalhes. Uma hora, um pênalti é marcado. O professor, acusador, juiz e carrasco, sentencia: “O Luiz vai cobrar”.
Silêncio na quadra. Todos os meus colegas de classe em muda antecipação. Seria um desastre, eu não devia ter sido escolhido. Fico na linha da penalidade máxima. Era um arremesso livre com uma das mãos em direção ao gol, sem barreira ou goleiro. Era moleza. Será? Não para mim.
Como se diz por aí, até uma mulher grávida faria aquele gol. Mas eu suava, tremia nas bases. Era muita responsabilidade.
Nunca tinha tido tamanha atenção na vida. Por que eu deveria ser o centro de algo, o salvador, a grande esperança branca o meu time? Que fardo...
Lembro do arremesso. A bola sai central e reta em direção ao gol, mas lenta. Certeira, mas lenta. Perfeita, mas...lenta. Havia o perigo que ela cessasse seu movimento retilínio uniforme (para usar expressão das aulas de Física) antes da linha fatal, sem se converter em gol e frustrando seu fado inevitável. Vai, vai, vai, ansiosa expectativa nas laterais do campo.
A bola passa da linha. É gol!!! Júbilo na torcida. O campo é invadido. Gritam meu nome. Sou abraçado, fazem festinha em meu cabelo, alguém me ergue. Apoteose total. O professor sorri.
Não recordo se ganhamos a partida. Não era campeonato de nada. Aquele esporte nem existe, exceto na mente do mestre de Educação Física. Mas, naquele momento, eu era e fui um campeão. Jamais tive tamanha sensação de vitória.
E temo que jamais terei. Como naquele jogo de nada, naquela manhã que já foi.
Canta Bruce Springsteen, em Glory Days (Dias de Glória):

“Yeah, just sitting back trying to recapture
A little of the glory of, well time slips away
And leaves you with nothing mister but
Boring stories of glory days“

(“Sim, apenas lembrando, tentando recapturar
Um pouco da glória do, bem, o tempo escapa
E deixa você com nada, senhor, mas
Histórias chatas de dias de glória”

(em minha livre tradução e adaptação)

sexta-feira, agosto 10, 2007

O último dia em Londres

A epopéia segue (calma, eu juro que está acabando. Mais uns 4 posts...)
Não há nada eterno, e um dia teria que deixar Londres.
No meu último dia resolvi conhecer um lugar chamado Notting Hill. Lá fica Portobello Road, uma rua cheia de antiquários. O metrô estava em reformas, portanto tive que descer algumas estações antes e andar de novo num double-decker, aquele ônibus vermelho de dois andares.
Creio que essa é a loja mais característica de lá:

Muitos aromas e sabores no ar. Lojas com muita coisa interessante.
Uma velha senhora vendia animais, e atraia a curiosidade das crianças:

Um outro stand vendia plaquetas. Reparem na que está no canto superior esquerdo, The Honest Lawyer (O advogado honesto), fantasmagórico ser sem cabeça. Deve ser uma metáfora inglesa para algo que não existe? Que má fama nós causídicos temos, é mundial:

Outras plaquetas: Após esse curto passeio, voltei ao hotel e peguei minha mala. Iria para a Escócia. Contei a correria que foi embarcar, e essa parte na viagem em três posts anteriores (O último trem para a Escócia). Antes de chegar em Edimburgo vi a cidade inglesa de Newcastle da janela do trem:

Depois da Escócia eu peguei o trem Eurostar, atravessando uma alfândega franco-inglesa, o túnel do Canal da Mancha (não se vê nada, tudo escuros...) e algumas horas depois eu estava em Bruxelas, capital da Bélgica. Teria uma etapa continental da viagem, com Bélgica e Holanda.Nos próximos posts falarei sobre a Bélgica. Inté!

quarta-feira, agosto 08, 2007

Os 2.000 de Esparta

Passei hoje na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a velha e sempre nova Academia. Nessa semana ela comemora 180 anos de vida. Tive a honra de lá estudar.
O evento era o lançamento de um livro sobre os 30 anos da leitura da Carta aos Brasileiros, corajosamente feita pelo Prof. Goffredo da Silva Telles no pátio das Arcadas, em meio às trevas do período ditatorial. A Carta pedia a volta do Estado de Direito ao país.
Duas mil pessoas estavam presentes à leitura da Carta.
Duas mil pessoas estavam presentes à passeata sábado passado vaiando o presidente Lula.
Tanto as duas mil de 30 anos atrás, como as duas mil de 4 dias atrás não faziam idéia do que faziam naquele momento. O tempo, para as que estavam na leitura da Carta, mostrou que elas estavam do lado do bem. Espero que não seja preciso tanto tempo para que o povo brasileiro perceba que confiou seu destino nas mãos de um grupo mal-intencionado, que só quer o poder pelo poder.
Daqui a trinta anos eu direi: estive lá.
Espero ser vencedor.

sábado, agosto 04, 2007

Vaias ao Presidente

Fui à passeata Fora Lula este sábado em São Paulo. À pé, perto de casa.
Achava que só ia ter eu e uns gatos-pingados.
Segundo o Estado de São Paulo, eram de 10 a 12 mil gatos-pingados. Segundo O Globo, 10 mil. Gente de bem, brasileira, cansada, revoltada, trabalhadora. Não vi uma faixa de sindicato, do MST, da Cut, ou bandeira de Cuba. Gente que apareceu sozinha, como eu. Que levou os filhos. Que chamou os amigos. Aliás, encontrei lá amigos e conhecidos.
Vai ter uma guerra de números. Posso atestar, vi muita, muita gente. Vejam:

Atrás de mim, enquanto eu tirava esta foto, tinha o carro de som e muito mais gente. Cartazes dos mais variados e muito barulho e vaia, do jeito que Lulla gosta:

1-)
2-) 3-) 4-)
Caminhamos até o Obelisco do Ibirapuera. Eu e meus irmãos e irmãs, meus compatriotas, meus conterrâneos, entoando o Hino Nacional. Cansamos de desgoverno e de desrespeito.
No caminho encontrei firme e forte a Dona Darcy, exemplo de vida:

Tivemos a cara pintada. Marchamos no sol, num sábado. É o começo.
E terminamos abraçando o Obelisco, símbolo do paulista, povo que não hesitou em brigar e morrer para ver respeitada a legalidade em 1932:

O próximo ato será em 7 de setembro.

Refugiados cubanos

Que governo é esse? Fica inerte diante da delegação cubana no Pan levada às pressas de volta ao aeroporto, sem averiguar se os atletas estavam sendo mantidos em cárcere privado e se havia alguém com interesse em pedir asilo. Aí, alguns dias depois, fazendo o papel digno de capangas de Fidel Castro, têm pressa em querer deportar os dois boxeadores que preferiram escapar da Ilha da Fantasia, mesmo sabendo o risco à integridade física destes (já tiveram seus bens confiscados por lá).
Quando foi para conceder asilo ao Cura Camilo (o padre Olivério Medina), porta-voz dos assassinos, sequestradores, terroristas e traficantes da Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), eles foram rápidos.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Cansei!

Esse é o post de hoje, e minha adesão ao movimento. Boa noite.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Grandes momentos em discursos presidenciais

Juscelino Kubitschek: “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu País e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino.”

Lula, em Cuiabá, um dos lugares em que ele pode ir sem ser vaiado, se a polícia impedir manifestantes de chegar perto: "Deus fez o homem perfeito, com duas orelhas, uma para ouvir as vaias e a outra pra ouvir aplausos.”

Comentário: Além de medroso, ele é adepto do criacionismo, nunca ouviu falar de Charles Darwin.