Lei Seca

Um espaço para discutir as grandes questões. Editor-chefe: Luiz Augusto

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Advogado, vive em São Paulo

terça-feira, dezembro 04, 2007

O hóspede em Amsterdam

Era definitivo. Não havia gostado mesmo do hotel. Já tivera a má impressão na chegada, quando aqueles três garotos árabes entraram sem convite e foram até o andar dos quartos. Imaginou que eles estavam a fim de furtar algo. A enjoada recepcionista mal deu conta deles, que acabaram saindo porque quiseram. Pestes. Provavelmente filhos de um pai que teve oito filhos. Eles próprios, cada um, terão oito filhos um dia. A miséria deles não acabará nunca.
Lembrava disso enquanto mastigava o pão sem sabor e tomava o leite quase azedo. Dois alemães, turistas também, dividiam uma mesa ao lado.
Em pouco tempo teria que deixar o hotel. Houve um problema com sua reserva. Sua agente de viagens, lá em casa, estava ligando para tudo quanto era lugar a fim de lhe conseguir um quarto. Confiava nela, iria conseguir outro lugar, apesar do feriado holandês.
Não havia o que fazer. Largaria as malas no depósito, iria até o centro e visitaria algum museu. Ligaria para casa mais tarde a fim de saber qual era o novo hotel. Voltaria ao hotel antigo e pegaria suas coisas. Aí começaria a nova fase de sua estada em Amsterdam. Esperava algo melhor, como prêmio pelo aborrecimento.
Um bonde o deixou perto do museu Van Gogh. Daria para o gasto. Olhou sem interesse as pinturas cercadas por multidões de turistas. Tinha vontade de ir embora, mas ao mesmo tempo não queria voltar à rua e ficar sem fazer nada, só esperando a hora de ligar para o Brasil e saber de seu destino. Era cedo. Ficaria.
Girassóis. Campos de trigo. Corvos num fundo amarelo e bege. Um quarto em Arles com suas parcas posses. Amigos. Muita cor. Quanta coisa viu o artista. Um dia ele cortou a própria orelha. Num outro ele resolveu cortar sua própria vida, com um revólver afiado. Seu irmão e marchand o seguiria à tumba alguns meses depois. C´est dommage, lamentariam seus conhecidos franceses.
E décadas depois, nesta mesma Amsterdam, um muçulmano maluco iria abater a tiros e a facadas um descendente dos Van Gogh, um diretor de cinema que portava o sobrenome famoso. Seu pecado foi criticar alguns de seus costumes bárbaros.
Após o almoço ligou para o Brasil. Uma boa notícia. Ficaria num hotel cinco estrelas, o Barbizon Palace, bem no centro. Longe das periferias de árabes. Justo o que esperava, um prêmio pelo aborrecimento de ter ficado sem-teto por algumas horas. Perguntou à agente se ele poderia pegar um táxi para o traslado, para poupar tempo. Claro que sim, ela o ressarciria.
Conforme o combinado, pegou o carro de aluguel. Um Mercedes dos bons o levou até o hotel antigo. O taxista não era falador. Ele próprio não estava a fim de conversa. Queria pegar as malas e ir logo para o hotel novo.
Apanhou sua bagagem em sua antiga hospedagem. Antes de ir embora teve vontade de mandar a recepcionista enjoada para os diabos: “Eu vou para o Barbizon, e você vai ficar aqui”. Deixou quieto.
De volta ao táxi, mais relaxado, conseguiu até falar um pouco com o taxista. Perguntou porque ele usava um Mercedes para o serviço de táxi. Ele disse que os carros para táxi na Holanda são baratos, e aquela marca dá menos gasto com peças. Muito justo.
Chega, enfim, ao Barbizon. Luxo e sofisticação. Um carregador leva sua bagagem ao quarto. Passam pelo concierge, que poderá lhe indicar o melhor de Amsterdam.
“O hotel tem piscina?”, pergunta ao carregador.
“Não, senhor, não tem”.
Deve ser por causa do frio. Não custava perguntar.
Larga uma gorjeta pela ajuda e entra em seu novo lar pelos próximos dias. Uma coletânea de brindes está na mesa da pia. Shampoo, sabonetes, até pasta de dentes, tudo personalizado com o nome do hotel. Atrás, uma banheira espaçosa.
Sobe uma pequena escada que separa o hall de entrada e o banheiro do quarto em si. Uma cama gigantesca, com um edredom bem convidativo.
Seria um desperdício aquilo só para ele. Pela primeira vez em algum tempo lembrou da namorada que largara em casa. Tentava não pensar muito, já que as coisas não andavam bem. Ela mal respondia seus telefonemas. Poderiam aproveitar aquilo muito, se ela tivesse topado ir junto. Paciência.
Havia um guia da cidade ao lado da TV. Um roupão branco de algodão o aguardava no armário. Isso é coisa de gente fina. Vestiu o roupão. Muito confortável. Deitou na cama e acabou adormecendo por uma hora, sem sonhar com nada.
Ao acordar estava a fim de um banho. Colocou a água para esquentar. Esperou a banheira encher lendo algumas páginas de um livro. Insinuou-se para a água morna e escorregou até afundar. Ficou ali por outra hora, até sentir os dedos murcharem, ao limite em que a fome era maior que o prazer que obtinha da água quente.
Enrolou-se no roupão e andou até a bancada, que aninhava o cardápio. Nenhuma mordomia seria completa sem pedir serviço de quarto. Pediu um sanduíche e um refrigerante.
Deitou-se para esperar e ligou a TV. Um canal inglês falava de uma menina sumida em Portugal. Mero seqüestro? Não era seu problema.
Sem agüentar ficar mais parado fuçou as coisas que estavam no quarto. Haviam três livros. A indefectível Bíblia, uma espécie de doutrina de Buda e um livro colorido sobre a cidade. “Amsterdam é uma cidade vibrante e cosmopolita”, dizia uma página do guia, em inglês. Outras anunciavam as atrações da cidade e relembravam sua história. A Era de Ouro holandesa. O Distrito da Luz Vermelha e suas mulheres nas vitrines.
Ligou para a namorada. Pelo fuso ela já estaria em casa. Ela tinha a voz fria e não queria muita conversa. Desligaram. Como dos outros dias, pensou que aquela viagem fora um erro. Mas não ligaria mais. Todo dia era o mesmo tratamento indiferente que ela lhe dava. Resolveriam na volta.
O sino toca. Era o serviço. Comeu sem muito entusiasmo e dormiu.

***

No dia seguinte desceu ao lobby de entrada. Numa das salas seria servido o café da manhã. Havia um piano de cauda ao fundo. Não sabia tocar nada. Foi até o instrumento e aprumou-se na banqueta. Estalou os dedos como um virtuose prestes a deslumbrar uma platéia ansiosa e dedilhou umas notas. Tocou o tema de James Bond, fá fá fá rá fá fá fá fá fá fá rá rá... Um funcionário do hotel se aproximou e pediu silêncio, todos dormiam, era domingo. A arte não é para todo instante...
O café prometia. Queijos importados. Pães. Bolos. Geléias. Ovos preparados de três maneiras. Panquecas. Waffles. Cereais. Até champagne era servido. Só não tomou uma taça por achar que beber sozinho é o primeiro passo para o alcoolismo. Não costumava comer muito ou ver prazer na comida, mas naquela manhã ele se fartou. Sentia-se poderoso.
Breve ida ao quarto para se preparar e o hóspede tomou as ruas. O Distrito da Luz Vermelha era logo ali.
Andou o dia todo e viu muitas coisas. Os olhos se cansaram de ver e os ouvidos de escutar. Um mar de gente e bicicletas, em meio aos bondes modernos e aos carros. Atravessar a rua era um desafio a todo minuto.
Circulou pelas ruas entre os canais. Viu igrejas e casas em barcos. O problema de viajar solo é não ter com quem comentar as coisas vistas.
Uma vendedora de flores chamou sua atenção pela beleza. Era a melhor coisa que vira na viagem. Cabelos loiros descendo pelo rosto, avental de moça do campo. Era até romântico. Flores, e uma beleza tão pura. Nem perdeu seu tempo. Não havia futuro. Não ficaria ali, e ela não iria com ele embora. Perguntou o preço de um vaso das típicas tulipas apenas para ouvir sua voz. Um timbre quase sonoro. Tentador.
Bem perto do hotel, na volta, uma placa num hotel lhe chamou sua atenção. Ela tinha o alto-relevo de um homem tocando trompete e uma mensagem do gênero em baixo:
“Nesse hotel, em 13 de maio de 1988, morreu Chet Baker. Sua música continuará para sempre”.
Já tinha ouvido falar dessa história. O trompetista e cantor gênio provavelmente ingeriu uma quantidade de letal de drogas ou álcool e despencou do segundo andar de um hotel. Aquele diante do seu. Se estivesse passando ali anos atrás, hospedado como agora no hotel vizinho, poderia ter visto a polícia chegando, e o corpo caído no chão, coberto por um lençol. Faria o sinal da cruz e entraria pesaroso em seu hotel, grato de não ser ele o corpo cercado de gente.
Voltou para o seu quarto pensando em Chet. Conhecia só uma música dele. “Let´s get lost. Let´s get lost in each other arms...” Talvez Chet também tenha sido um hóspede solitário, naquele hotel que foi sua última casa, e cuja calçada dura foi a última coisa que sentia na vida. O baque do concreto em sua cabeça cheia de música.
O hóspede se sentia só. Lembrou dos seus e de sua terra, deitado de roupão na cama. Ótimo que essa viagem estava acabando. Mas tinha que aproveitar aquela noite, sua última na Europa. Pegou um bonde e foi para uma região agitada. Circulou pelas ruas.
Um gramado verde continha lagartos de bronze entre flores, pareciam vivos. Saber que iria embora dava uma sensação de abandono, como se largasse a mulher amada. Aquele quarto no cinco-estrelas era seu lar agora. Tirou foto de tudo que pudesse lembrá-lo de Amsterdam depois. Bebeu até se entorpecer, sozinho e em contrariedade às próprias regras. Não se afogou num canal e voltou para o seu quarto. Tampouco despencou da janela do mesmo.
Ao acordar, recolheu suas coisas e foi para o aeroporto que os nazistas bombardearam durante a guerra. Fez do avião seu último ponto de hospedagem. Sabia que na volta seu romance iria acabar. Afundou na poltrona como se essa o tragasse, como se isso o pudesse defendê-lo das coisas que terminam.
Lembrou do quarto do hotel. Do roupão e da banheira. Do café da manhã. E da vendedora de flores. Pareciam ser as únicas coisas importantes em Amsterdam.
Tentou dormir enquanto as terras da Europa se afastavam e o avião pairava sobre o Atlântico.

2 Comments:

Blogger Rubia said...

Luiz
Tenho certeza que ainda será um escritor famosooooooo. Vc nasceu com este dom maravilhoso de se comunicar com seu leitor do melhor modo.....envolvente.....real.
Autobiografia?? Final da sua viagem?? rs...rs.
Abraços,
Rubia

4/12/07 22:49  
Blogger Luiz Augusto said...

Autobiografia (rs)? Não, sou muito modesto para isso... Mas sofro da maldição dos meus leitores sempre acharem que escrevo sobre mim.

5/12/07 18:53  

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