Lei Seca

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Advogado, vive em São Paulo

sexta-feira, outubro 26, 2007

O crime do padre Júlio

Pelo que se lê em toda parte, parece que a grande ameaça aos católicos são os próprios sacerdotes. Ao menos nos EUA. Indenizações milionárias são pagas a quem foi seviciado e abusado na infância por padres. Algumas dioceses cogitaram pedir falência para escapar da conta.
Ecos desse escândalo demoraram a chegar no Brasil. Dizer que aqui não há padres que gostam de criancinhas é como o Presidente do Irã ter declarado que naquele país não existem homossexuais. Sim, infelizmente, nós temos esse tipo de clérigo.
Se as denúncias se confirmarem, o nosso caso mais notório será o do “padre de passeata” Júlio Lancelotti. Esse religioso, extorquido por um bandido durante três anos, entregou a este R$ 80 mil. A ameaça era não ver exposto um caso de abuso de um adolescente. E o dinheiro pode ter sido tirado da ONG que o padre comanda, que recebe mais de meio milhão de reais da Prefeitura de São Paulo. Escândalo suculento, envolvendo verbas públicas e sexo com menores.
Muitos provérbios populares me vêm à cabeça com esse affair Lancelotti:

- Onde há fumaça há fogo
- Casa de ferreiro, espeto de pau
- Quem não deve não teme
- Diga-me com quem andas e te direi quem és
- Quem com ferro fere com ferro será ferido

Teria sido melhor que Lancelotti tivesse lido outros Provérbios, os da Bíblia, do livro de mesmo nome: “Meu filho, se os pecadores te atraírem com teus afagos, não condescendas com eles (capítulo 1, versículo 10)”. Ou o versículo 1 do capítulo 6, perfeito para quem aceita dar garantias de crédito a bandidos que compram carros de luxo: “Meu filho, se ficares por fiador do teu amigo, deste por ele a tua mão a um estranho; com as palavras da tua boca te meteste no laço, e ficaste preso pela tua própria linguagem”.
Lógico, não se está falando que o padre Júlio é culpado. Ele é inocente até que se prove o contrário. Acho que o assunto é outro. A mãe da questão é a castração que a Igreja Católica Apostólica Romana impõe aos seus integrantes. O celibato clerical.
Alexandre Herculano, grandeescritor português, já se ocupava da questão no século XIX, em citação clássica (até manjada):

“Eu, por minha parte, fraco argumentador, só tenho pensado no celibato à luz do sentimento e sob a influência da impressão singular que desde verdes anos fez em mim a idéia da irremediável solidão da alma a que a igreja condenou os seus ministros, espécie de amputação espiritual, em que para o sacerdote morre a esperança de completar a sua existência na terra (Euríco, o Presbítero)”.

A Igreja sustenta uma posição anacrônica, e cara. Não entendo esse repúdio ao sexo, coisa tão natural quanto dormir ou respirar. Não há vida sem ele, exceto as unicelulares. E se impõe que padres, freiras e monges vivam como se não tivessem uma parte de seus corpos, sem poder unir suas vidas às de outras pessoas.Ora, a vida sempre encontra um jeito. Os abusos nascem porque a Igreja condena um padre a viver como um eunuco, sem que possa casar e constituir família. Daí os ataques aos jovens de seu rebanho. Daí os abusos. Daí as indenizações milionárias e os escândalos.

5 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Muito bom Gutao!! Teu blog muito bom mesmo!! parabéns! Rafael Campos

26/10/07 15:26  
Blogger Luiz Augusto said...

Valeu, Rafa. Voltei com tudo!

27/10/07 23:19  
Blogger Rubia said...

Boa noite....Luiz
Continuo lendo o que escreve....vc sempre feliz em suas colocações. Infelizmente, só posso admirá-lo e parabenizá-lo.....não tenho o que escrever além de vc!!! rs...rs.
Vc vai fundo em suas reflexões....que conteúdo, meu amigo.
Meu abraço,
Rubia

5/11/07 23:33  
Blogger Luiz Augusto said...

Obrigado Rubia, bem vinda de volta!

6/11/07 00:14  
Anonymous Anônimo said...

Hello

It is my first time here. I just wanted to say hi!

22/5/10 13:53  

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