Lei Seca

Um espaço para discutir as grandes questões. Editor-chefe: Luiz Augusto

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Advogado, vive em São Paulo

terça-feira, julho 10, 2007

Ah, ser um gordo

Se gordo eu fosse, que coisa boa. Seria chamado de gordinho simpático ou por algum apelido terminado em ão. Gutão. Luizão. Abusaria dos doces e tomaria broncas dos doutores pelo colesterol alto, triglicérides descontroladas, gorduras trans e tudo o mais.
Teria homéricos ataques de gota e reclamaria do ácido úrico. Mancaria até a geladeira, para me consolar. Tomaria pisões dos meus sobrinhos no pé doente, que cairiam na risada, fugindo do paquiderme. Perseguiria-os com a bengala em riste e bufando.
Fartaria-me de quitutes, acepipes, pastéis, bolos e suspiros. Comeria até sacudir as bochechas flácidas. Escutaria piadas que me fariam ter ataques apopléticos, ocasiões que riria até me fartar, cuspindo farelos e deixando a comida cair na roupa e no babador.
Ocuparia espaço, muito espaço. Quebraria cadeiras, levantando embaraçado e aflito, com o rosto ardendo em fogo. Derrubaria bandejas com os cotovelos e me viraria bruscamente, nocauteando os franzinos com minha constituição vigorosa, que as moças diriam ser a “de um boi”, e sacudiria a pança, batendo com as mãos em concha e dizendo ser a barriguinha da “prosperidade”.
Sentaria como o Buda e meditaria, planejando o que jantaria na hora do almoço e o que almoçaria no café da manhã, que seria o desjejum dos campeões, uma desforra. Faria pratos do tamanho do Pão de Açúcar. Os donos de quilos teriam minhas fotos, a fim de proibir minha entrada. Castigaria balanças, que trincariam, chiariam e resfolegariam a fim de me agüentar, suas engrenagens forçadas ao limite.
Faria marmitas, embrulharia restos e carregaria quentinhas a toda parte.
E comeria tortas, compotas, geléias, gelatinas, quebra-queixos, brigadeiros, pães e polentas, tomaria sorvetes que escorrem pelos braços e manjaria néctares que grudariam nas mãos. Arrancaria com os dedos as coxas de aves assadas e deixaria as digitais gordurosas como pistas de minha passagem.
Só teria amigos pesados. E um chamaria ao outro de gordo ou gooordo, como no interiooor. Lutaríamos sumô e daríamos cascudos nos magrelos.
Faria esteira de moletom, colocaria adoçante no café e tomaria Coca Diet, pois só gordo faz essas coisas ruins. Iria me internar num spa, mas contrabandeando uísque e bolachas para os outros detentos. Seria popular, o homem que arranja as coisas na prisão. Ouviria falar sobre dietas e sobre redução do estômago, e afastaria essas sugestões com deboche: estou apenas forte.
Discutiria com bilheteiros e aeromoças. Não vou pagar outra passagem. Se me fizessem pagar, ocuparia três lugares.
Faria pedidos milagrosos de lanches, sanduíches tão portentosos e recheados que as moças diriam benzadeus e cairiam de amores.
Dormiria muito, para engordar mais, até o colchão ter o meu formato. Pediria serviço de quarto e assistiria televisão até decorar a programação.
Deitaria na praia e deixaria as crianças fazerem castelos de areia em cima. Depois entraria no mar e boiaria. Ao me cansar, rolaria nas ondas e chafurdaria na lama, como um nativo das Ilhas Cook, divertindo a todos. Alguém me chamaria de baleia e eu fingiria estar bravo, só para não perder a moral. Arremessaria lama no cocuruto do folgado, que ficaria bem quieto, por ser um frango.
Se eu fosse à piscina anunciaria o show do leão-marinho e daria um mergulho de acabar com a água, molhando o jornal dos senhores e estragando o penteado das senhoras.
Mas isso não acontece, porque sou magro. Que pena...

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Guto
Apesar de ser`` fortinho´´
e não faço essas coisas da sua cronica , achei sensacional a verdade contada ai ! rs
Adalberto

11/7/07 10:20  
Blogger Rubia said...

Luiz,
Que sátira...rs!!!
Fui lendo e personificando o "GORDO".......vc foi fidedigno até demaisssssssss.
Abraço,
Rubia

11/7/07 12:58  

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